ZERO | Ep. 03 Janaína


Às quatro e meia do segundo dia do ano, desperta o rádio ao som de Zezé di Camargo e Luciano. Ela vira na cama, sem vontade de acordar e nas ruas do Rio já há fumaça pelo ar. 
"Acorda, mãe. Toma agora seu remédio." diz a Janaína. A mãe, senhora já aos setenta e poucos anos toma o copo e bebe a água e o comprimido. Enquanto isso a filha penteia rápido os escuros cabelos compridos. Com pressa, fita o espelho e enxerga os seus olhos pretos... Corre e pega sobre a prateleira uma pilha de boletos. Leva nas mãos a chave de casa e o aluguel, a água e a luz, o mês inteiro. Paga todo dia a lida de ser só mais uma gota no oceano de Janeiro.
Ainda é cinco da matina e o sol nem clareou. Já embarca o pé direito de Janaína no trem que já chegou. "Ah, que bom seria fosse só um..." ela imagina, mas ainda tem baldeação, um trecho a a pé e depois outra condução.
Já começa a limpeza, o quarto, os móveis, o chão. A luta diária da faxina eterna de toda a repartição. No seu cargo nem essa segunda-feira de 17 foi feriado. "Êee... Ôoo, vida de gado", exclama o Zé Ramalho no radinho de pilha. A Jana sorri de canto, concordando, enquanto força o pano contra a ladrilha. O trabalho a prende ali, mas sua mente não é ilha... A cada palmo de pó removido, mora um sonho contido e vivo no coração dela. Sonha com o horizonte azul, um navio a navegar. De tirar os pés do morro e colocá-los sobre o mar. Um destino de surpresas e um mundo a conquistar.

"Um dia a gente há de ser feliz... Se Deus quiser."


Na correria, com serviço até o pescoço, a moça às vezes até perde o horário do almoço. Perde a hora e ás vezes a comida. Tem dia que até se perde sem saber onde está na vida.
_ Que dia é hoje mesmo seu José?
_ Oxe, menina, hoje é dia dois! Num viu que ontem já foi ano novo?
Para e pensa confusa e olha além... Volta a si quando se lembra: "Meu aniversário já é semana que vem!".
Foi mais um dia, mais um ano, algumas horas... Desengano. Sem saber, carrega o mundo sobre si, a Janaína. Paga as contas e os preços, vive de coletivo em coletivo entre dois endereços, sem parar nem se distrair. Do amor, nem sabe mais... Desilusão antiga, foi embora o ex que a traiu e que seu coração partiu.
Abre a tranca da porta enquanto sua mãe vê a novela das sete, tão concentrada... Janaína nem se mete. Vai pro banho para depois jantar. O corpo tão cansado, ela mal tem vontade de falar. Mas guarda para sua mãe companhia e paciência. O amor de filha faz-se forte em simplória reverência, na forma de conversa antes que o sono venha. Afinal... Amanhã é um novo dia de lida, de lenha.
Janaína toca o travesseiro com a nuca e mira o teto, à meia-luz que vem do poste da rua. Anônimas, tantas Janaínas brasileiras brilham mais do que a lua. Ela fecha os olhos e respira fundo pelo nariz... Mentaliza, firme, com forte convicção de mulher: "um dia a gente há de ser feliz... Se Deus quiser.".

(Daniel Fernando)