Thor's Day - O cristianismo no contexto histórico de Vikings.

Caro leitor, na série Vikings, ocorre o contato dos nórdicos com o cristianismo durante as primeiras incursões do grupo de Ragnar Lodbrok ao sul da Escandinávia, em direção as ilhas britânicas. Obviamente, para não dar nenhum spoiler, explicando o que ocorre, porém vou ter que citar que, nessa viagem temos o início do contato mais próximo entre nórdicos e cristãos, com a entrada do monge Althestan (George Blagden). Prefiro parar por aqui, referente ao personagem cristão, sem explicar se Althestan existiu e se influenciou Ragnar em alguma coisa, pois quero fazer um levantamento do contexto histórico e assim tentar deixar mais clara a visão de como se dava a expansão religiosa na Europa. Dessa forma, hoje vamos ter muito mais fatos históricos relacionado com o cristianismo do que com os nórdicos propriamente ditos.

Desde já, deixo claro, não podemos olhar para a relação de Althestan, Ragnar e o grupo de nórdicos de Kattegat, uma vez que, todo o expansionismo da religião tem um contexto de muitos anos na Europa central, ou seja, para quem fosse criado dentro da cultura cristão, já se conhecia sobre bárbaros, enquanto para os nórdicos, o contato com cristãos era algo completamente novo.



Vamos lá então!

Sabemos que, os países nórdicos hoje em dia são de maioria cristã, principalmente protestantes e uma parcela de católicos, mas como será que ocorreu a entrada do cristianismo nessa região.

Muitos podem dizer que a entrada do catolicismo e cristianismo como um todo, foi muito complicado nessa região, devido ao forte apelo que as pessoas tinham ao paganismo e, que lutaram contra essa aculturação. Porém, em registros históricos podemos ver que, o cristianismo nunca teve uma estratégia de dominância imediata dos povos dessa região por parte de Roma, sendo que, levou entre 150 a 200 anos, para se tornar reconhecido como uma religião já pertencente também às pessoas que viviam na Suécia. Esses dados são encontrados até hoje em escavações na região de Estocolmo, que sempre teve grande importância como centro social das pessoas que habitaram o Báltico

Portanto, diferente do que se acredita, o cristianismo, por meio da Igreja Católica, foi se enraizando na cultura local de forma bastante paciente, uma vez que, já tinha ocorrido por várias vezes a tentativa da conversão de povos europeus o quanto antes e, isso não deu muito certo, havendo sempre muitas retaliações violentas por parte dos pagãos. Obviamente, o processo de cristianização da Europa se inicia com o império Romano, quando Constantino se converteu ao cristianismo, após sua grande vitória na Batalha da Ponte Mílvia, em 28 de outubro de 312 d.C, onde dizia ter sido inspirado pelo Deus cristão. Porém, mesmo sendo cristão a partir desse momento, Constantino não obrigou que, o cristianismo se tornasse a religião oficial do estado e, também não obrigou que, o paganismo fosse suprimido no império, uma vez que, a extensão territorial era muito grande e seria imprudente dar chances a revoltas.


Busto de Constantino: Augusto que tornou Roma cristã.

Sendo assim, permitiu que o cristianismo fosse adentrado pela Europa, mas sem acabar com a cultura local, o que causou um problema, uma vez que, surgiram diversas Igrejas com definições diferentes sobre o que era o cristianismo, por isso, todas deviam responder diretamente à Roma. Constantino é conhecido por alguns feitos, como, a unificação do império Romano, a cristianização do império e também por tentar padronizar as religiões cristãs. Dessa forma, no ano de 325 d.C, o Augusto (título de chefe do império Romano) convocou o primeiro Concílio de Niceia, onde então, haveria uma organização das ideias e regras dentro da religião cristã.

Então, podemos ver que, o cristianismo foi adentrando os territórios europeus de forma vagarosa e sendo reestruturado ao longo do tempo, sendo que o primeiro rei Suevo (da região que corresponde ao norte de Portugal, ou seja, uma região bastante extrema ao leste de Roma) a se tornar católico foi Requiário I, no ano de 448 d.C, o que mostra a "paciência" do cristianismo. Um dado interessante é que Requiário é tido como um dos primeiros ou até mesmo, o primeiro rei germânico, a se converter ao cristianismo, mostrando que, levaram mais de dois séculos para o cristianismo de Constantino conseguir cruzar a Europa toda. 


Requiário I sendo batizado, notem o machado em sua mão, símbolo dos Suevos e também uma arma muito comum por parte dos povos nórdicos.


Porém, com a consolidação de diversas monarquias ao catolicismo, podemos dizer que praticamente toda a Europa era católica por mais ou menos 600 anos após Constantino. Durante esse período, ocorreram outros concílios e, a religião foi ficando mais organizada, sendo que diversas seitas foram extintas ou desligadas de Roma. Mesmo com esse crescimento do cristianismo católico pela Europa continental, haviam regiões em que não se tinha chegado ainda, ou talvez, nem mesmo se imaginava que existia. Uma dessas regiões escondidas do domínio da religião cristã era a Escandinávia, ou Península Báltica.

Podemos dizer que, o cristianismo, somente tomou percepção que existiam regiões ao norte e, que poderiam lá haver mais fiéis, com as incursões nórdicas nos séculos VI a XI, principalmente sobre a Rússia (Kiev), Inglaterra (Notumbria), Portugal (Suevos), França (Francos) até chegarem em Constantinopla (Capital do Império Bizantino). Mais especificamente, os Noruegueses rumaram para regiões como Islândia, Irlanda, Escócia e Canadá, enquanto os Dinamarqueses foram em direção à França, Sul da Inglaterra, Holanda e Alemanha, já os Suecos cortaram a Finlândia, entraram na Rússia e se expandiram em direção aos países eslavos, até chegarem a Constantinopla.

Logo, a expansão dos nórdicos, em busca de novas terras e riquezas, acabou por ser o fato responsável pela cristianização da região, uma vez que se mostraram para a Igreja Católica da época, devido ao fato dos templos sempre serem alvos das pilhagens. Dessa forma, tomou-se como objetivo, levar o catolicismo para essas terras distantes, converter o povo e dessa forma cessar com tantos ataques. Assim, a religião cristã começou a ser enraizada vagarosamente nos territórios do norte, sendo que, durante os séculos X e XI d.C, já se tinham paróquias. 

Com a conversão dos chefes dinamarqueses, suecos e noruegueses, teve inicio uma diminuição drástica das invasões nórdicas, sendo que, em muitos casos esses povos começaram a servir Roma. Devido ao fato do cristianismo pregar misericórdia e a crença em um Deus único, bom e severo, os nórdicos começaram a se tornarem menos implacáveis e mais abertos a culturas externas. Sabemos que em covas pagãs de guerreiros suecos, já foram encontrados artefatos como estátuas de bronze até mesmo de Buda, mostrando que, mesmo com uma mitologia cheia de deuses, os nórdicos, se mostravam maleáveis às crenças exteriores conforme iniciaram sua expansão e também interessados em comércio, já que uma estátua de Buda, somente chegaria em mãos nórdicas através de comércio.

Assim, o cristianismo conseguiu o grande objetivo de uma "unificação" entre os diversos territórios da Europa. Todos que estudam um pouco de história, sabem que, houveram pelo menos quinze cruzadas, sendo que, a última cruzada ocorreu no norte da Europa, recebendo o nome de Cruzada do Norte. Essa cruzada foi convocada pelo Papa Celestino III no ano de 1193, com finalidade de subjugar os povos da Escandinávia, Finlândia e Rússia, que ainda eram pagãos dentro dos territórios cristãos do norte. Obviamente, já se sabia que não tinha como haver uma grande resistência desses povos não cristãos, pois os reis escandinavos, com auxílio do Sacro Império Romano-Germânico, era bem mais populoso e já haviam aceitado a crença em Cristo, logo, a conversão com domínio territorial podia ser feita sem passar pelos problemas imaginado durante o governo de Constantino.

Guerreiros das ordens católicas que lutaram nas Cruzadas do Norte: Cavalaria Teutônicos (reconhecidos pela cruz preta no fundo branco) e Templário Livornianos (reconhecidos pela cruz vermelha no fundo branco). Ambos exércitos germânicos da região da Alemanha.

Um fato a ser ressaltado é que, a Cruzada do Norte foi pedida pelos reis da região ao Papa, afim de conquistarem novas terras e principalmente rotas de comércio e em retribuição à ajuda de Roma, se garantia parte dos espólios à Igreja. Claramente nota-se que, o grande interesse pelas cruzadas foi dos monarcas locais, com finalidade de conseguir mais poder, porém, não é passível dizer se as pessoas que participaram de qualquer cruzada, ou guerra em nome da religião, realmente estava usando a mesma como desculpa, para assim contar com exércitos estrangeiros, que pelo menos compartilhavam de uma mesma crença, ou se realmente eram crentes de que uma ação, como a invasão de terras vizinhas era um ato de evangelização. Obviamente, não cabe a nenhum de nós julgar a ação de milhares de pessoas, porém a critério de governo, essas cruzadas do norte (podemos dizer no plural, pois foram diversas incursões), tinham na maioria das vezes objetivos como, tomadas de castelos e destruição de postos avançados, logo, eram por parte dos monarcas, ações de dominância e não de cristianização.

Eu sei que a maioria das pessoas que assiste Vikings encara o cristianismo como repressor da cultura dos nórdicos, porém, por outra ótica, podemos notar que não foi bem a religião que acabou jogando às sombras a mitologia, mas sim, os grandes responsáveis foram as pessoas que se utilizavam de uma crença em comum em toda a Europa e que tinham certo poder regional. Essas pessoas solicitavam uma união em torno da religião para provocar um conflito, que na realidade tinha como objetivo aumentar dominância.

Com estudos de arqueologia, conseguimos ver que, os nórdicos, até eram tolerantes com outras religiões diferentes do seu politeísmo (que tem muita ligação com crenças germânicas e principalmente helenística), porém, assim como todo povo que tem hegemonia sobre um território, não aceitam ser subjugado por força. As Cruzadas Nórdicas ocorreram até o século XV, quando uma nova rota de comércio e colonização foi descoberta, no caso a América. A grande ironia disso tudo é que, os noruegueses chegaram até o Canadá, uns 600 anos antes que Cristóvão Colombo, sendo que, por direito essas terras poderiam ter pertencidos a eles e dessa forma, serem os donos de um grande, rico e próspero novo mundo.