ZERO | Ep.01 ''Você é livre demais'' (...) Sobre o amor e outras paradas


"As abelhas zanzam em zumzumzum incessante ao sapear entre as azaleias"... "Azaleia! É isso! Isso mesmo!". Exclamou um dos garotos da sala, ao impedir o tradicional monólogo biológico do Prof. Juvenal, que era tradicionalmente esperado em todo início de suas monótonas aulas.
_ MARCELO! Alguma observação? _ retoricamente pergunta o mestre.
Marcelo encolheu-se em sua cadeira como qualquer cara de 16 anos faria ao ser pego de calças na mão, passando vergonha no meio da galera. Fitava o canto inferior direito de seu olhar ao sentir seu rosto esquentando pouco a pouco por ficar sem jeito.
Exatas três carteiras à frente do Marcelo viravam dois olhos castanhos, com sobrancelhas perfeitas que... Riam. Riam do rapaz e do ridículo que ele acabara de protagonizar. O par de olhos e o de sobrancelhas tinham nome: Ariana. Um cabelo de cor escura que escoava por dois ombros simétricos e aparentes, mãos delicadas e pequenas, unhas sem esmalte e... E... Ponto.

"Sabe qual é o seu problema? Você é livre demais! E nesse seu mundinho em que tudo dá certo para você, tudo que tá ao seu redor passa feito rolo compressor em cima das vontades dos outros!"

Você, com certeza... Já consegue adivinhar qual a flor favorita da moça... Não? Pois é. O Marcelo também já sacou isso desde a semana passada, quando ela pisou na escola com um belo exemplar da flor-lilás na mão esquerda e um Augusto Cury na outra.
Ah, quando o moleque fitou aquela mina... Parecia música do Strike, ela chegou, quase que matou, foi daquele jeito, todo o baile parou... Mas não era Jota Quest!? Sei lá, a real é que foi uma confusão dele pra dentro, que lhe engolia as entranhas a cada passo da "garota nova" no corredor.
O sinal toca anunciando o fim da aula de Biologia. Ao abrir a mochila, Marcelo sente uma mão que lhe cutuca o ombro e uma voz dizendo: "Relaxa, não liga pra ele.".
Voz doce, branda, leve, calma...Toda ela bela..."Ah, tá. Beleza." responde ele ainda sem pensar no que dizia, mas surpreso... Surpreso pela abordagem dela. Ele mal se vira e já dá de cara com a Ariana envolvida nos braços do Rodrigo, que engata nela um beijo daqueles de novela em plena troca de sala às 10 da manhã.
Claro que o Marcelo ficou de cara no chão. "Já era, acabou, esquece, não tem jeito.". Era o menino partido de cara e coração. Para sua surpresa, nos dias seguintes, ele ainda a veria nos braços do Rodrigo, do Paulo, do André... Mas o engraçado disso tudo é que aquele olhar de "eu sei o que você tá pensando"... Esse só o Marcelo tirava da Ariana. Mas era isso. Isso e "nada" mais. Nem eram tão próximos, mas algo ali prenunciava a existência de alguma coisa recíproca... E indefinida.
Ainda era quarta-feira na aula de Educação Física quando, ao tomar mais um gol, o Marcelo recebeu um daqueles olhares dela e foi até abeira da quadra, onde ela estava... Ele não disse nada... Se aproximou e tocou os lábios dela com os seus. Foi rápido, repentino, inesperado. Ambos não sabiam o que acontecera e, muito menos, o que fazer.
"Cara! Puta que pariu! Volta logo pro gol!". O dever chamou e Marcelo voltou ao jogo. É...Voltou de corpo, porque a mente já tava voando longe... Bom... Nem preciso dizer que o Marcelo tomou mais cinco gols só naquela aula.
Dali em diante Ariana e Marcelo permaneceram incomunicáveis. Ambos seguiam naturalmente suas rotinas, mas... Não se falavam nem se entreolhavam... Nada... Nada. Aliás, o que havia antes já era muito próximo do nada... Agora eles estavam perto do negativo.
Foi na sexta quando ele comprou uma flor roxa, tomou coragem e, já na saída, em frente ao portão, virou cara a cara com a moça e perguntou: "Nunca sentiu falta... Nem ao menos um pouco... Daquela sensação de criança, que parece dava olhos pro coração. Que para sentir, bastava ver? Nem um pouco?" indagou ele, quase retoricamente, estendendo a flor em direção à moça.
"Não! Não senti." ela disse ao virar o rosto.
Marcelo sentia uma lágrima nascer em cada um de seus olhos e incubar, crescendo... Mas antes que elas rolassem, ele soltou: "Sabe qual é o seu problema? Você é livre demais! E nesse seu mundinho em que tudo dá certo para você, tudo que tá ao seu redor passa feito rolo compressor em cima das vontades dos outros!".
"Quem você pensa que é? Como pode falar assim comigo!?" gritou Ariana ao chamar a atenção dos poucos que se encontravam em frente à escola.
Marcelo caiu em si. Havia se encantado por alguém que nem mesmo conhecia. Ela tinha razão. As abelhas zanzam e o garoto derrama ao chão a azaleia órfã que trazia. Era ali no portão o fim do que nem pôde começar. Enfim, ela virou e foi embora. Na segunda-feira já não mais apareceu na escola. E o Marcelo ficou ali, na mesma escola, no mesmo portão cheio de interrogação, como se fosse charada... "O que foi que eu fiz!?". Vai a moça, e o amor fica à força. E por consequência... Outras paradas.

(Daniel Fernando)