Thor's Day - Loki, seria um vilão?

Hoje em dia é muito comum os quadrinhos, cinema e bandas como Amon Amarth retratarem Loki ou Loke ou ainda Lothur, como sendo um Aesir (Aesir = deuses das qualidades humanas) ou um gigante de gelo com sentimentos perversos e, que tem somente o intuito da dominância de Asgard e destruição dos outros 8 mundos da Yggdrail (árvore cerne do universo). Porém será que era isso mesmo que os nórdicos pensavam?

Thor x Loki: Representação da franquia Marvel e a capa do nono álbum de estúdio 
da banda sueca de Viking Metal Amon Amarth. 

Na realidade Loki foi retraduzido atualmente como uma alegoria de Hades, obviamente a mitologia nórdica é totalmente embasada na mitologia grega, assim como os romanos, porém, Loki é um caso à parte!

Primeiro fato que diverge do que conhecemos atualmente sobre Loki é que possivelmente os antigos povos da escandinávia nem o cultuavam, ou seja, não era reconhecido como um deus. Esse personagem tão carismático e temido, na realidade funcionava como uma balança da justiça, punindo e atrapalhando os atos egoístas dos deuses. Loki na verdade está muito mais para a própria descrição da força da natureza em relação ao acaso, do que para um deus. 

Os deuses nórdicos são expressões de fenômenos naturais em sua maioria, sendo Thor o relâmpago e o trovão, Njord o Vanir dos mares (Vanir = deuses mais ligados à fertilidade da Terra e causas naturais), Hoder o inverno e a escuridão... Loki então se caracteriza mais como um evento natural, das coisas que ocorrem inesperadamente, sendo algo que as pessoas não conseguiam prever e então tinham que respeitar. Os fenômenos naturais, como cheias de rios, uma tempestade que se aproxima, o nascer do dia e o entardecer eram todas coisas atribuídas aos deuses, mas que podiam ser previstas que iriam ocorrer, ou seja, ações diretas de alguma força reconhecida. Por outro lado, um evento como o cair de uma árvore, a roda de uma carroça que quebrava, um telhado que caia num vendaval repentino e até o crepúsculo dos deuses (Ragnarok) eram atribuídos a Loki.


Busto de Loki por Israel Rosslyn.

Um lado desconhecido de Loki era sua engenhosidade, fato esse que extrapola os deuses, pois esses não criavam artefatos e armas, eles encomendavam com os anões, porém Loki criava coisas, sendo muito respeitado entre os pescadores, pois atribui-se a ele a invenção da rede pesca. A priori pode parecer algo simplório, porem para uma comunidade que vivia excluída da "Europa quente" onde a comida era mais farta, o consumo de proteínas era quase que exclusivo, com maior fartura, baseado em pescado, sendo assim, Loki ao contrário do que se prega hoje não representava um vilão, mas sim em muitos casos como uma entidade que não tomava partido de um lado. Em vários contos, esse personagem aparece ajudando os deuses, como no caso do engodo do gigante de gelo que fingiu ser um homem e se dispôs a reconstruir as muralhas de Asgard em troca do Sol, da Lua e da deusa Freyja e, que perdeu seu cavalo poderoso, o qual arrastava os blocos de pedra, pois Loki se transforma em uma égua e o atrai para a floresta (Daí surge Sleipnir). Suas travessuras com os deuses por outro lado são inúmeras e servem para controlar um pouco o ego desses, como no conto da aposta com Thor, onde esse dizia que podia tomar sem parar hidromel e, Loki então conecta a ponta do chifre onde Thor bebia ao bar que circundava o mundo, fazendo assim o deus do trovão perder a aposta.

Como já foi mencionado Loki está envolvido diretamente com o Ragnarok, uma vez que é o pai de Fenrir ou Fenris, o lobo gigante que seria capaz de engolir a lua e iniciar o apocalipse nórdico. Esse lobo é retratado como aquele quem devorou a mão direita de Tyr, o deus da coragem, o qual tentava alimenta-lo. Na profecia diz-se que Fenrir irá devorar Odin e em seguida ser morto pelo deus Vidar, que abrirá suas mandíbulas rasgando-o ao meio.  

Além de Fenrir Loki é pai de Hella ou Hela ou ainda Hel, a guardiã do submundo, ou seja, Hellhein, sendo retratada como metade uma belíssima mulher e metade um corpo completamente decrépito. O terceiro filho de Loki é a serpente gigante de Midgard, conhecida como Jörmundgander ou Jormungand. Essa serpente era tão gigante que vivia no oceano que circundava Midgard (Terra dos mortais), sendo representada mordendo sua própria cauda (alusão ao Ouroboros da alquimia grega, que tinha intuito de simbolizar eternidade e ressurreição). Jormungand tem em especial um destino importante, pois durante o Ragnarok será a responsável pela morte de Thor, que também a mata.

Fenrir, Hela e Jormungand - Filhos de Loki.
(Arte: Israel Rosslyn)

Por outro lado Loki também é mãe, sim, por incrível que pareça!... Junto de Svaldifari (o poderoso cavalo do conto do gigante de gelo que tentou enganar o panteão), geraram Sleipnir, que depois veio a ser a montaria de Odin.

Portanto Loki se mostra uma figura carismática que na realidade mais serve de contrapeso frente ao poder sem limite dos deuses do que um vilão. Pelo fato de muitos deuses, principalmente os Aesires serem alusões a reis antigos, Loki pode ser caracterizado também como uma espécie de contra-controle em forma de crença muito semelhante à teoria explicada no livro "O Principe" de Nicolau Maquiavel - o qual recomendo muito a leitura.